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Curiosidades PROFESSORES

As ilustres professorinhas de Alvorada do Oeste

O aguardar da velha companheira de todos os dias, a Kombi.

13/10/2020 15h31
Por: AlvoNotícias Fonte: Por Francisco Guimarães
As ilustres professorinhas de Alvorada do Oeste

Antes mesmo do sol se pôr, já estavam postas na pracinha da cidade todas as jovens professoras, aguardando a velha e companheira de todos os dias, a Kombi, o meio de condução que as levariam por mais de cem quilômetros de distância para trazerem o conhecimento para as crianças e adolescente da nova cidade que iria nascer.

Todo dia uma aventura diferente, não havia um dia ou uma noite que guardasse semelhança um com o outro; e se chovesse ninguém seria capaz de dizer qual seria o tamanho da noite e muito menos o local certo onde seria o próximo atoleiro ou mesmo presumir o tamanho do novo buraco que com certeza nasceria após o pé-d’água

As cores das roupas, ah! Essas elas tinham condições de escolherem apenas na ida, porque na volta não tinham opção, apesar de haver sempre duas cores disponíveis pela natureza e pelo descaso com esse lado do mundo, por parte dos governantes, que era a amarela molhada da lama e a amarela seca da poeira.

Apesar dessa diferença visual, todas as duas cores oferecidas na volta traziam consigo as condições perfeitas para causarem um resfriado ou manifestar as crises alérgicas nas vias respiratórias  que, aliás eram os únicos sons da noite naqueles atoleiros que diferiam dos coaxas dos sapos: os espirros, que pareciam responder ao comando de uma batuta de um maestro maluco pela falta de ritmo e cadência, cada uma no ritmo do seu sofrimento.

Não foram poucas as noites que tiveram que ser socorridas pelos esposos; muitas vezes era mesmo já na ida, a meia viagem, com a falha do motor da velha Kombi. Nesses casos o primeiro socorro a chegar era a sorte, que nem sempre aparecia, nunca se pode saber se a sorte também tinha seus maus dias ou simplesmente estava indisposta e não saía ao socorro de ninguém, por mais nobre que pudesse ser a causa.

E nesses dias, se não aparecesse um aventureiro voltando para cidade para prestar algum socorro ou mesmo trazer algum voluntário para buscar ajuda, não havia alternativa, senão esperar até depois do horário normal do retorno, para que suas ausências despertassem nos esposos suas faltas, fazendo com que a preocupação os trouxesse para resgatá-las o mais rápido possível.

Não foram poucas as vezes que o socorro chegou já no profundo da madrugada, pois, os mesmos abismos que precipitavam a volta delas, também precipitavam a chegada de socorro.

Na chegada era impossível do esposo fazer um reconhecimento visual de sua mulher, mesmo que a lua tornasse a noite quase um dia. Porque elas depois da luta com a lama para empurrar a velha companheira, se tornavam todas iguais, não na situação que era constante, mas, na aparência mesmo; eram verdadeiras bonecas de barro que, para o marido abraçá-las, caso tivessem coragem, a chamavam pelo nome verdadeiro, jamais poderia ser de "amor" posto que amor é muito genérico e comum entre quem se ama; se assim o fosse a confusão iria continuar. Chamavam-nas pelo nome e, as reconheciam pelas vozes, mesmo que embargadas ou roucas de amargura, cansaço e poeira.

Noites longas, longos anos. Hoje já bem distantes daqueles tempos, contam e encantam, com gracejo, aquelas noites de aventuras e sonhos, das meninas, hoje mães e dignas professoras que ajudaram e ainda ajudam na construção da educação dessa cidade tão especial de história tão bonita.

E, eu, sempre que posso as ouço, com muita atenção e interesse nas histórias de vidas e de lutas que inspiram e que transformam vidas.

Hoje, nós, bem distantes daqueles tempos, colhemos os frutos das árvores plantadas em covas fundas, que aquelas sonhadoras jovens plantaram um dia por noite adentro.

Parabéns a essas heroínas professoras de Alvorada do Oeste, por meio das quais parabenizo todas as demais professoras, e, obrigado é pouco, mas, por hora é tudo que tenho. Depois dou o meu abraço e falo do meu respeito e admiração por este feito que por certo muito contribuiu para o município ser o que é.

 

Francisco Guimarães, um grande admirador desses profissionais e da trajetória dessas mulheres que construíram essa história.

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