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Curiosidades INTERNET

As redes que juntam para dividir

Por Francisco Guimarães.

03/09/2020 19h35
Por: AlvoNotícias Fonte: Francisco Guimarães
As redes que juntam para dividir

As redes Sociais talvez tenha sido uma das inovações tecnológicas que mais fascinou a humanidade nos últimos tempos. Criam nas pessoas a sensação de coletividade, interatividade e o sentimento de que são sempre amadas e admiradas pela sua grande rede de “amigos”, com isso afasta a ideia de solidão. Gera um sentimento de que nunca se está sozinho; e faz algum sentido no imaginário coletivo, porque se se está a todo instante interagindo com alguém, a ideia que se desdobra é a de que sempre está cercada de pessoas distantemente íntimas (contradição dos tempos modernos).

A interatividade é uma característica marcante da natureza humana, segundo Yuval Harari, em seu livro Sapiens-Uma Breve História da Humanidade, onde sustenta que o Homo Sapiens conseguiu se sobressair sobre outras espécies, Homo Neandertalenses e Homo Erectus, pela forte característica de comunicação e relações sociais. Conclui que a capacidade desenvolvida de comunicação do Sapiens foi o fator preponderante para que a espécie prosperasse e chegasse até aqui nos tornando no que somos.

Entretanto, é interessante refletir que a capacidade de comunicação e interação que fez com que sobrepujássemos a todas intempéries da vida, foi a comunicação verdadeiramente, com relações sociais próximas; a comunicação que facilita a convivência e a harmonia no grupo; não a interação remota que apenas cria uma falsa ideia de coletividade que serve somente para paliar a solidão real, sentimento marcante na sociedade dos nossos tempos.

O fato é que se não compreendermos o momento atual de nossa história, estaremos fadados a um trágico fim, pois vivemos um momento no mundo em que nunca tivemos acesso a tanta informação e com tanta facilidade que, podemos afirmar que temos o mundo inteiro na palma de nossas mãos. Entretanto, não estamos sabendo o que fazer com tudo isso, não estamos transformando todo esse volume de informação que está ao nosso alcance com muita facilidade, na inteligência que necessitamos para que continuamos o ciclo de nosso destino e de nossa história, enquanto humanidade (Zigmunt Bauman).

Qualquer ideia, seja de corporações ou de políticos que se encantar com o número de pessoas interagindo semi-anônimas em grupos de redes sociais, qualquer que seja ele, para extrair alguma vantagem, vão naufragar com seus objetivos, sem se darem conta das razões.

Opiniões, achismos, convicções filosóficas, religiosas, ideológicas, partidárias, interesses pessoais etc. se debatendo sem se olharem nos olhos, gera guerra com uma facilidade incrível; disso todos sabem do que estou falando.

Quando se está num ambiente onde você leva a informação ou a sua ideia sem o feedback imediato, não se vai encontrar uma reação orquestrada e uníssona quando arranha as convicções mais gerais do grupo, como fé, partido e, sobretudo, moral, principalmente no mundo atual onde a moral é a régua balizadora de tudo o mais. Um mundo em que se espera da justiça um alinhamento com a moral ou não é justiça. Sem ter a compreensão de que justiça

não é moral. Por outra via, se se estar num ambiente conectado com indivíduos organizados e com a ferramenta de contrarreação na ponta dos dedos as coisas tendem a mudar e, até mesmo descambar para um ambiente perigosíssimo e assustador, de muitos gritos ensurdecedores.

Grandes veículos de comunicação estão caminhando para o fracasso exatamente por não terem compreendido a tempo a lógica dessa nova onda. Levavam suas convicções ideológicas como a única correta e não havia contraditório, embora o sentimento moral de todo um povo fosse outro, mas não poderia haver reação por falta de meio e, principalmente pelo sentimento de estar sozinho do indivíduo. Entretanto, quando perceberam que podiam reagir em cadeia, tudo mudou. O poder monologal se esfacelou. Acabou a Hegemonia e o monopólio da “verdade”. Vive-se hoje em um mundo de muitas verdades, “verdades individuais”.

O político que pensar e ousar tentar se encantar com o número de pessoas que poderá juntar em um grupo de apoio por meio do WhatsApp, por exemplo, está condenado a bancarrota eleitoral, pois verá seus eleitores se digladiando entre si e os grupos ruindo. Uma fuga em massa de insatisfeitos. E nada poderá ser feito para que seja restaurado, pois tudo isso faz parte da lógica de que não é possível juntar tantos diferentes que não seja para desunir.

Diante de um mundo novo no qual se transformou o nosso mundo e, com a velocidade que nossos olhos não podem acompanhar, a melhor coisa a ser feita, talvez seja compreender o recado do Mestre do futuro, Alvim Toffler, autor do famoso livro “Choque do Futuro”, 1970, quando afirmou que “O analfabeto do século XXI não será aquele que não consegue ler e escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender e reaprender”.

Hoje, nós no epicentro dos acontecimentos, tudo que temos de fazer é compreender que temos que aprender, desaprender e reaprender na mesma velocidade dos acontecimentos das coisas. O grande segredo da compreensão e do sucesso é nos atentarmos na presteza dos nossos atos para coadunar com as rápidas mudanças dos tempos modernos, ou estaremos condenados ao sofrimento de um fracasso certo.

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