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REDUÇÃO DO CRIME

Brasil tem queda de 22% no número de mortes violentas no 1º semestre, revela Monitor da Violência

Houve 21.289 assassinatos nos primeiros seis meses deste ano. No mesmo período de 2018, foram 27.371.

01/09/2019 10h40
Por: AlvoNotícias
Fonte: G1

O Brasil registra uma queda de 22% nas mortes violentas no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2018. A região Nordeste é a que tem a maior diminuição. É o que mostra o índice nacional de homicídios criado pelo G1, com base nos dados oficiais dos 26 estados e do Distrito Federal.

Em seis meses, houve 21.289 assassinatos, contra 27.371 no mesmo período do ano passado. São 6 mil a menos.

O Nordeste responde por mais da metade dessa queda (3.244 mortes a menos), ou seja, 53% do total no país.

A tendência de queda nos homicídios foi antecipada pelo G1 no balanço dos dois primeiros meses do ano, que apresentaram redução de 25% em relação ao mesmo período do ano passado, e no balanço das mortes violentas de 2018, que teve a maior queda dos últimos 11 anos da série histórica do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com 13%.

O número de assassinatos, porém, continua alto. O dado mostra que há uma morte violenta a cada 12 minutos no Brasil – 118 por dia, em média.

O levantamento faz parte do Monitor da Violência, uma parceria do G1com o Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Os dados apontam que:

 

  • houve 6.082 mortes a menos nos primeiros seis meses de 2019
  • todos os estados apresentaram redução de assassinatos no período
  • três estados tiveram quedas superiores a 30%: Sergipe, Rio Grande do Norte e Ceará
  • o Ceará, aliás, respondeu sozinho por 1/5 da queda nas mortes no Brasil
  • a queda no Nordeste foi a maior entre as regiões do país: 27%

 

 
A região Nordeste é a com a maior queda no primeiro semestre deste ano, com quase 30% — Foto: Rodrigo Sanches/G1A região Nordeste é a com a maior queda no primeiro semestre deste ano, com quase 30% — Foto: Rodrigo Sanches/G1

A região Nordeste é a com a maior queda no primeiro semestre deste ano, com quase 30% — Foto: Rodrigo Sanches/G1

O G1 foi a fundo, pouco antes do fim do semestre, nos cenários de segurança pública de três estados: Acre, Ceará e Rio Grande do Norte. Integrantes e ex-integrantes dos governos e entidades foram consultados para levantar as principais medidas tomadas nos estados que podem ter resultado na queda da violência. A GloboNews também entrevistou autoridades e especialistas.

Entre as medidas adotadas estão:

 

  • ações mais rígidas em prisões, como constantes operações de revistas e implantação do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD)
  • isolamento ou transferência de chefes de grupos criminosos para presídios de segurança máxima
  • criação de secretaria exclusiva para lidar com a administração penitenciária
  • criação de delegacia voltada para investigar casos de homicídios
  • integração entre as forças de segurança e justiça
  • maior investimento em inteligência policial
  • adoção de programas de prevenção social

 

 
Brasil teve 6.082 mortes a menos no 1º semestre de 2019 — Foto: Rodrigo Sanches/G1Brasil teve 6.082 mortes a menos no 1º semestre de 2019 — Foto: Rodrigo Sanches/G1

Brasil teve 6.082 mortes a menos no 1º semestre de 2019 — Foto: Rodrigo Sanches/G1

 

Sergio Moro: ações dos governos, transferência de chefes de facções e apreensão recorde de drogas

 

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, atribuiu a queda no número de mortes violentas no país a esforços de governos locais e do governo federal, citando recordes de apreensão de drogas e transferência de chefes de facções criminosas para presídios federais como medidas que surtiram efeitos nos índices de criminalidade. Moro também afirmou que o governo está com uma política de tentar retomar o controle de vários presídios do país.

 

“Apesar da redução, vamos reconhecer: os números ainda são altos. Precisamos melhorar muito mais”, afirmou Moro, em entrevista exclusiva à GloboNews.

 

“O mérito é também do governo federal porque assistimos basicamente a uma redução da criminalidade em todo o país, o que nos leva a crer que existe uma causa nacional para a redução da criminalidade. Entre elas, recordes de apreensão de drogas, especialmente cocaína pela Polícia Federal, pela Polícia Rodoviária Federal, e o incremento da política de transferência e isolamento das lideranças criminosas.”

 

Ceará: pacto entre facções e investimento em inteligência

 

Os números do Ceará são os que mais impressionam. Houve uma queda de 53% nos assassinatos, se comparado o 1º semestre deste ano com o do ano passado. Isso representa uma diminuição de 1.254 mortes – 1/5 do total de assassinatos a menos no Brasil.

Em 2017, uma guerra entre facções levou o Ceará a ter um ano com recorde de violência, com 5.133 homicídios. O cenário levou o estado a adotar medidas mais rígidas contra os criminosos, especialmente dentro dos presídios, de onde partem as ordens para muitos dos homicídios.

Em 2019, uma pasta exclusiva para atuar nos presídios foi criada. A posse ocorreu em 1º de janeiro deste ano, e o secretário da Administração Penitenciária recém-empossado, Mauro Albuquerque, prometeu acabar com a divisão de facções por presídios e tornar mais rigoroso o controle de celulares nas unidades prisionais. Como represália, os mesmos grupos criminosos que cometiam homicídios entre si se uniram para realizar uma série de ataques no estado.

 

“Fizemos este enfrentamento em 2019, mostrando que quem manda é o estado, mantendo a ordem nas unidades prisionais. Eu não tenho dúvida que isso teve um efeito muito forte, e nós sabíamos que isso ia acontecer nas ruas depois”, afirma o governador Camilo Santana.

 

 
Membros de facções atacaram prédios, equipamentos e veículos públicos e privados, em todo o estado, em janeiro de 2019 — Foto: José Leomar/G1Membros de facções atacaram prédios, equipamentos e veículos públicos e privados, em todo o estado, em janeiro de 2019 — Foto: José Leomar/G1

Membros de facções atacaram prédios, equipamentos e veículos públicos e privados, em todo o estado, em janeiro de 2019 — Foto: José Leomar/G1

Houve 192 mortes em janeiro no estado, uma redução de 60,1% em comparação com janeiro de 2018, com 482 assassinatos.

 

Segundo especialistas, a queda foi consequência de um “acordo” entre as facções, que passaram a se concentrar mais no estado como inimigo que nas brigas entre si. Consequentemente, os índices de mortes violentas caíram.

 

O relator do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, Renato Roseno de Oliveira, diz que a queda dos homicídios no estado deve ser, de fato, comemorada, mas os fatores que levaram à redução são muito mais complexos do que parecem.

 

“Teve um rearranjo dos territórios através de grupos armados. Teve uma variação da própria organização do crime, que passou a compreender que, em determinados territórios, a redução do homicídio mantém um circuito da própria economia do crime”, diz Renato Roseno de Oliveira, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa.

 

O governador destaca, no entanto, que, além de fazer políticas voltadas para o sistema penitenciário, o estado investiu em uma série de medidas que resultaram em um maior controle dos índices de violência. “Começamos a investir na área de inteligência, de tecnologia. [Há] um processo de fortalecimento policial com mais profissionais, com mais inteligência. Lutamos para trazer para cá o primeiro centro de integração de inteligência do Nordeste, para integrar os estados”, afirma.

O sistema de videomonitoramento em Fortaleza, por exemplo, passou de 164 câmeras em 2015 para as atuais 2.543. As imagens geradas pelos equipamentos são integradas às câmeras do Departamento Estadual de Trânsito, da Prefeitura e da Polícia Rodoviária Federal.

 
Sistema de videomonitoramento em Fortaleza conta com mais de 2,5 mil câmeras — Foto: Luis Paes/GloboNewsSistema de videomonitoramento em Fortaleza conta com mais de 2,5 mil câmeras — Foto: Luis Paes/GloboNews

Sistema de videomonitoramento em Fortaleza conta com mais de 2,5 mil câmeras — Foto: Luis Paes/GloboNews

Há ainda sistemas que facilitam a identificação civil e criminal por meio da biometria, bem como iniciativas com foco social, como o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência da Polícia Militar, que tem como objetivo orientar alunos de escolas públicas e privadas sobre assuntos relacionados ao uso de drogas, e a polícia comunitária.

“A gente tem grupos que cuidam de mulheres vítimas de violência, que trabalham com mobilização comunitária, que fazem mediação de conflitos”, diz o capitão Messias Mendes, assessor de polícia comunitária da PM do estado.

Renato Oliveira cita as medidas tomadas pela gestão estadual como importantes, já que a presença das forças de segurança nos territórios foi expandida, mas acredita que o cerne do problema não foi atingido. “As causas da vulnerabilidade, sobretudo na segunda década de vida, de 10 a 19 anos, não foram enfrentadas. São causas socioeconômicas, comunitárias e territoriais”, afirma.

 

“O advento da tecnologia, que é, sem dúvida nenhuma, muito celebrado pelos governo estadual, é importante, mas não pode virar a panaceia, a grande solução mágica e miraculosa para a questão da violência, porque as raízes da violência são sociais. A violência é retorno da segregação”, diz Renato Oliveira.

 

 
Nordeste é a região com a maior queda — Foto: Rodrigo Cunha/G1Nordeste é a região com a maior queda — Foto: Rodrigo Cunha/G1

Nordeste é a região com a maior queda — Foto: Rodrigo Cunha/G1

 

Acre: controle dos presídios e integração de forças

 

A guerra entre facções também fez com que o Acre enfrentasse nos últimos anos um aumento desenfreado da violência. A disputa entre grupos criminosos explodiu no fim de 2015, quando foram registrados os primeiros ataques em Rio Branco. Isso fez com que os índices de violência aumentassem muito nos anos seguintes, passando de uma taxa de 29 mortes por 100 mil habitantes em 2015 para o recorde de 63,9 em 2017.

 
Guerra de facções fez violência explodir em Rio Branco — Foto: Josué Martins/GloboNewsGuerra de facções fez violência explodir em Rio Branco — Foto: Josué Martins/GloboNews

Guerra de facções fez violência explodir em Rio Branco — Foto: Josué Martins/GloboNews

Em 2018, porém, a taxa regrediu para 47,5 mortes por 100 mil habitantes, numa queda de mais de 20% no número de assassinatos em relação ao ano anterior. No primeiro semestre de 2019, os números continuaram caindo, ficando quase 30% abaixo do registrado no mesmo período de 2018.

O G1 e a GloboNews conversaram com autoridades e ex-gestores que estavam à frente da segurança pública quando a guerra começou para tentar entender que medidas foram tomadas e acabaram impactando no combate às organizações criminosas.

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