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Escritório Confiança
Canção de ninar
NÃO SE CRIAM MAIS BEBÊS COMO ANTIGAMENTE
Por João Batista Lago
João Batista do Lago

João Batista do LagoJoão Batista do Lago é jornalista, filósofo, escritor, poeta e teatrólogo.

07/04/2019 22h04
Por: AlvoNotícias
Fonte: João Batista do Lago

"Hoje em dia, segundo recente pesquisa

feita pelo site The Baby Website,

com 2000 mães britânicas,

dois terços delas preferem cantar

músicas pop do que canções de ninar

na hora de acalmar ou colocar os bebês

para domir.ii"

 

 

Eu sou duma geração que ia pra cama embalado por estórias e cantigas de ninar ou cantigas de roda. Elas foram tantas e quantas, que marcaram definitivamente toda a minha história de vida. Ainda hoje sou capaz de lembrar plenamente de muitas delas: Boi da cara preta, Bicho papão, Dorme neném, Dorme filhinho, Nesta rua, Terezinha de Jesus, Entrei na roda, Atirei o para no gato, Pirulito que bate-bate, O cravo e a rosa, Escravos de Jô, Pai Francisco, Se essa rua fosse minha, Marcha soldado…

Muitos de vocês, sobretudo aqueles que nasceram antes dos anos 80, com certeza, devem estar lembrando, neste exato instante, de suas reminiscências. Chego mesmo a devanear sobre isto e imagino ver o rosto de cada um abrindo um largo sorriso ao lembrarem de suas tenras infâncias… Dum tempo e dum espaço onde se era feliz. Simplesmente feliz! Dum tempo em que essas estórias, cantigas de ninar ou cantigas de roda não eram analisadas sob o manto de um tal psicologismo barato da pós-modernidade ou duma modernidade tardia, envolto sob o prisma de preconceitos aculturantes e escatimosos, ou mesmo escatológico.

Já se escreveu por aí na rede “A Inocência perdida das canções de ninar”, texto que pretendera desconstruir esse folclore nacional, partindo de argumentos chulos e eivados de preconceitos ou, pior ainda, abarrotado de uma tipologia de aculturalismo tupiniquim, que muitas dessas canções teriam sido as responsáveis pelas agruras da miséria e da pobreza brasileiras, entre outras coisas. O texto da autora (ou do autor) peca pela grosseria analítica – seja do ponto de vista denotativo, seja do ponto de vista conotativo.

As nossas estórias, canções de ninar ou canções de roda, antes de serem demonizadas pelos arautos e defensores dum certo aculturalismo pós-modernista, com o apoio de uma certa corrente xiita de ecologistas, bem assim de certa corrente psicanalítica, e mais ainda, de um certo número de intelectuais indiferentes à cultura da formação do Homem (homem/mulher) brasileiro, todos sacerdotes da igreja do modismo mercadológico da hora presente, deveriam ver nessa nossa fenomenológica manifestação popular, a partir do campo da arqueologia histórica, o florescimento da formação cultural da nação pau brasil, mesmo que se admita o viés político-econômico dos colonizadores, das elites e das burguesias dominantes, essa fenomênica manifestação está sim, na nossa raiz, não como o caldo cultural de um povo de baixa estima, mas como um povo que traduz, desde as suas raízes, todas as manifestações fenomênicas das estratégias e projetos dos colonizadores e dominadores, e que eram denunciados por intermédio dessa argamassa folclórica.

Quanto às canções pop de ninar das mães britânicas pouco, ou mesmo nada, tenho a comentar. Mas habita-me uma preocupação latente no corpo social brasileiro, ou seja, nós que tanto gostamos e admiramos de tudo que é estrangeiro e dos estrangeirismos, ainda que vulgares, haveremos de substituir nossas estórias, canções de ninar ou canções de roda pelas músicas pop para adormentar nossos pimpolhos? Ou será que passaremos imunes por esse paradigma de aculturação?

Pois é! Essas duas questões me conduzem a duas respostas empíricas. A primeira delas me remete ao questionamento do aculturalismo com viés do colonizador; já a segunda me encaminha para o questionamento de um viés do colonizado. Na primeira questão está implícita a sujeição do “sujeito nacional” ainda não imune às pressões de um certo tipo de colonização europeia, agora sob a orientação de um caldo cultural da pós-modernidade ou modernidade tardia. Já a segunda me faz raciocinar a partir do ponto de vista do colonizado que, por força da historicidade revela-se caldatário de uma determinada tipologia preconceituada latente, isto é, que está presente de maneira contida e invisível, mas que poderá vir à tona se os agentes internos defensores do caudilhismo colonizador se utilizarem de suas estruturas de comunicação para imprimir, como ferradura, na alma do povo essa aculturação.

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